Ana Paula Sampaio

Tudo passa. Dor de dente passa. Enxaqueca passa. Torcicolo, braço quebrado, pedras nos rins passam. Até dor de cotovelo. Um dia passa.
Sofrimento passa. Dúvida passa. Dor, aperto no peito, vontade de pular da ponte. Medo, incerteza, melancolia, raiva. Tudo passa.
Solidão? Eu não sei se passa. Solidão pode ser tanta coisa. Dizem até – e acho que foi Fernando Sabino que disse – que solidão é quando estamos infelizes; quando estamos bem, não é solidão, é sossego, mesmo.
Saudade passa? Saudade é o tempo perdido. Tempo espremido entre dedos. Tempo espremido entre vontades: a de ir e a de ficar. Quanto se mais espreme, mais ele vira passado. Enquanto houver um coração, ainda que pleno, haverá saudade. Saudade não passa.
O amor? O amor se transforma. Muda com a suavidade de uma colherada de açucar que caindo na água, se transmuta, transformando aquilo que tocou. O Amor é generoso. Dá mais do que recebe e há sempre mais a dar. Amor de verdade não passa.
Das coisas que passam, o que mais passa é o Tempo. Não só passa como também leva algo consigo. Um tanto de viço da pele, de firmeza dos músculos, de bastos cabelos. Outro tanto de inocência, de capacidade de entrega, de crença de que o bem sempre vence.
Mas se o Amor é generoso, o Tempo consegue ser mais ainda. Deixa sempre algo no lugar do que levou. O Tempo traz paciência e força para que a gente aguente até que tudo mais faça como ele próprio: passe.
Se estou entregue ao Tempo, estou em boa companhia. Afinal, até a gente mesmo um dia vai passar.

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